quarta-feira, 27 de maio de 2009

Como foi...



Foram muitos os telefonemas e acordos com meus colegas, mas enfim depois de um tempo a visita ao asilo saio.

Eu já havia visitado a casa algumas vezes com outros amigos e sempre achei uma experiência maravilhosa e enriquecedora.

Não posso afirmar que são poucos aqueles que visitam os velhinhos, mas com certeza é a minoria,. Só esses poucos é que sabem a satisfação e tudo que se passa e sente lá dentro, alguns sentimentos bons e ruins que acabam se misturando em uma vontade de repensar na própria vida, no valor ao próximo e no querer fazer o bem.

Algumas pessoas têm medo, não as culpo, pois lá você tem que ser bom de coração e por muitas vezes forte.

Vemos diversos pais, mães, vôs e vós que por algum motivo pararam neste lugar.

O lugar é lindo, tem muitas flores, árvores frutíferas, bancos, um bom lugar para descansar ou passar as férias.

------------------------------------------------- escrito por cidão
----------------------------------------------------------- fotografado por TIMER

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Dentro da casa de três andares, nota-se uma pequena mudança no clima, o primeiro e o segundo andares são onde estão os vovôs e vovós mais novos, mais ativos, que andam (mesmo que por vezes de muleta), algumas vós gostam muito de tricotar ou dançar, aos sábados e sextas sempre tem visitas, um bailinho ou bingo.

Ali eles dividem quartos de duas até 6 pessoas, assim como em algumas repúblicas por ai.

É impressionante como alguns velhinhos são de bem com a vida e gostam de estar ali, mas por outro lado tem aqueles que preferiam já ter ido pra um outro lugar, aquele lugar que todos dizem ser melhor e tal.







--------------------------------------------- escrito por Guilerme Lara
--------------------------------------------- fotografado por Henrique Lopes

A VIDA, NO FIM DA TODAS AS RESPOSTAS...





















Neste momento em que estou aqui redigindo estas palavras, em meio à, no mínimo, quatro outras atividades paralelas, correndo contra o tempo, olhando o relógio a cada 15 minutos.


Torcendo pra que ele tenha parado, ou que, ao menos, diminua a velocidade, para que eu possa terminar todas as minhas atividades no prazo estipulado.
Eu paro e penso: e se eu não tivesse nada disso pra fazer?
Se eu não tivesse a liberdade de fazer aquilo que me dá prazer e, ao invés disso tivesse que ter prazer com aquilo que as minhas limitações me permitem fazer?

Pois é, eu não imagino.
Eu vi. Presenciei dezenas de pessoas, que não tem esta escolha.

Que ao contrário de mim, ficam pensando em algo que lhes é permitido fazer para ocuparem seu tempo.
Tempo que, aliás, elas contam para que acabe.
Para que a situação em que se encontram termine.
O ponto alto daquele domingo de ressaca, o que me deixou nesse teto louco em que me encontro, foi ouvir a frase: “agora a gente fica aqui, e espera o Senhor chamar.
Porque a gente não pode fazer muita coisa além disso.”
Triste?
Para os outros que lá estavam, e pra ti que ta lendo agora pode parecer.
Pra mim também, pois quando tu vê nos olhos de uma pessoa que ela se sente assim, tu pensa que é um merda, que só pensa em si mesmo.

Sim, foi isto que me veio na cabeça.
Mas ao mesmo tempo em que ela nos diz isso, no mesmo instante em que olhamos no fundo dos olhos tristes, e vemos as mãos trêmulas e fracas, desgastadas pelo tempo.
Um movimento quase passa despercebidos, alguns pouquíssimos segundos em que eu não abaixei a cabeça para demonstrar minha tristeza, eu vi um tímido sorriso no rosto daquela senhora e um brilho no olhar.

Pois ao mesmo tempo em que ela se sente mal por não poder mudar a sua situação, pela experiência que a vida só dá a alguns, ela fica feliz. Feliz, por saber que nós, jovens, podemos fazer isso, que somos extremamente ativos, e vivemos e fazemos o nosso mundo do jeito que bem entendemos.
Ela se sente gratificada por nos alertar, que devemos fazer tudo o que pudermos, aproveitar cada segundo, agora, por mais rápido que pareça passar.
Porque um dia, este mesmo segundo vai demorar horas para passar.
E nós é que estaremos dando conselhos aos mais jovens, falando sobre a vida, de como foi boa essa fase, e acima de tudo, felizes por saber que alguém ainda é.

E hoje, meu conselho é: faça um esforço e tenha esta mesma experiência. Porque a alegria de alguém pode ser te ver feliz.

------------------------------------------------------------------ escrito por Rogério Turrely
----------------------------------------------------------------fotografado por Henrique Lopes

A Artista do Asilo...


VOVÓ "AMADA"...


Nos dois primeiros andares foi divertido e inspirador, mas no terceiro...

No terceiro andar do asilo Spaan, ficam os velhinhos chamados de “acamados”, lá são os mais velhos e doentes que ali estão, são aqueles que na verdade mais precisam de atenção.


Mas é triste, pessoas que realmente não conseguem sair de suas camas pra nada, sentem dores em todo o corpo durante todo o dia.


Conheci uma senhora, Amada, ele mora na Spaan há 20 anos, vive em cima de uma cadeira de rodas e perdeu a fala um tempo atrás, isso faz com que seja muito difícil de entendê-la, Amada tem pouco mais de 90 anos, é muito, muito pequena e tem as costas curvas, das duas vezes em que subi ao terceiro andar ela estava no mesmo lugar, no corredor, na mesma cadeira, na mesma posição, imagine passar um dia inteiro assim, uma semana ou um mês, agora imagine passar 20 anos.


Claro que ela já foi melhor, mas agora ela fica ali sentada olhando pro chão, e quando me aproximei pra conversar com ela, ela abriu um sorriso alegre com a cabeça baixada.

Conversei com ela por uns 20 minutos, e em várias vezes quis chorar, ela me contou que sua família a abandonou lá e que ela já não gostava muito daquilo.


Mas uma coisa duas coisa me deixaram muito feliz, a primeira foi ver seu sorriso, e sempre foi assim, com um sorriso que ela me recebeu, a segunda coisa que me deixou feliz foi quando ela disse com a voz enrolada, que todas as quartas feiras um senhor vem visita ela e leva ela pra passear pelo pátio da Spaan.


Amada me contou isso muito alegre, percebi como é fácil fazer uma dessas pessoas feliz, depois pedi permissão para levá-la pra um passeio, demos uma volta no asilo e voltamos.

Isso que eu fiz por ela, a conversa e um ligeiro passeio não foi nada, foi tão simples, mas foi o momento mais alegre do meu fim de semana e tenho certeza que pra ela também foi.


Amada, com a beleza da experiência, umas das mulheres mais lindas que eu já conheci.


Obrigado Amada.


-------------------------------------------------------------------- escrito por Luiz (Cidão)

UM LINDO DIA DE DOMINGO...


24 de Maio de 2009, um lindo dia de sol, calor e um baita domingo pra ir ao Parcão tomar um “chimas“ com os amigos. Resolvi reunir esses amigos e ir a SPAAN, um asilo situado No bairro Nonoai.

Chegando lá fizemos a primeira visita na ala feminina. Ao adentrar a porta, fomos recebidos por uma senhora de muletas onde disse pra ficarmos a vontade e que se fosse necessário, chamar ela.

Demos umas voltas e acabamos dando de cara com ela de novo. Já no seu quarto, disse que tinha acabado de se mudar pra lá, e tinha conseguido levar uma TV e alguns móveis, e se dizia muito feliz.

Saímos do quarto e sentamos na sala de estar da casa, ficamos uns minutos conversando, e foi o suficiente para aparecer uma senhora com uma bengala, uma outra tricotando, e um senhor não muito idoso.

Conversamos sobre tudo. Foi muito legal a troca de experiências.



Depois de mais ou menos uma hora, saímos dessa ala e fomos para ala das senhoras com maiores necessidades, onde precisavam ficar na cama, doentes, etc.

Essa parte foi complicada, pois não consegui ficar mais de 5 minutos lá dentro.

Ao entrar encontramos com uma senhora em uma cadeira de rodas parada em um canto do corredor.
Ela tinha as costas bem curvadas, era pequeninha, e os pés ficavam na horizontal, e não na vertical. Luiz Paulo(cidão) foi o mais forte, e conversou por uns 20 minutos com ela, e após essa conversa me relatou que essa senhora lhe disse que ela se sente presa, pois não sai do quarto e do corredor.

Ele perguntou se os enfermeiros não a levam para passear pelas áreas do asilo, e ela disse que antes a levavam, hoje não mais. Então muito comovido, Cidão levou a pequena senhora para dar uma "caminhada" pelo asilo.

Tenho certeza de que foi um dia muito bom para ela.
Hoje estava indo para a PUC olhei o sol e pensei: "que dia lindo" e ao pensar isso, lembrei da senhora da cadeira de rodas.

Conhece o velho ditado: "O sol brilha pra todos"
Será que é verdade? Ele (o sol) pode até estar ali esperando para "tocar" sua pele, mas nem sempre ele tocará.

O sol é vida, vida que aquela senhora desconhece, pois não sai de um corredor frio, com cheiro de hospital. O corredor da espera, o corredor da desesperança.

Ao sair do asilo concluí que essas pessoas estão ali esperando a morte chegar. Chamo de "Corredor da espera" por vários motivos. E um desses motivos é o fato de a maioria espera pela visita dos familiares, que abandonam essas pessoas como se fossem objetos que caíram em desuso.

Pense nisso. Pense nos seus avós, Pais, Tios.
Por que depois que eles morrerem, no tem mais volta.

--------------------------------------------------- escrito por Nicholas Kowalski
--------------------------------------------------- fotografado por Guilerme Lara

O CONSELHO DA EXPERIÊNCIA...



Algumas senhoras contavam de suas vidas, filhos e netos, maridos, juventude a chegada da velhice.


Ouvi muitas histórias lá dentro, algumas alegres e outras mais tristes.


Conversei com uma senhora que tem o mesmo nome da minha falecida vó, a única mulher (fora minha mãe) que eu amei com muito vigor, ela morreu aos 82 anos e por ser a única vó que tenho lembrança e a ultima senti muito a perda dela.

Então essa vovó Ida lá da Spaan não falava muito, agente conversava e ela ali, quietinha tricotando e só ouvindo, depois de um tempo ela se manifestou e disse para nós que devemos aproveitar ao máximo nossas vidas, pois em um instante nos daríamos conta de que estamos velhos, foram poucas suas palavras, mais sábias e dolorosas.


Não consegui saber se ela dizia isso com orgulho de ter vivido sua vida ao máximo ou por não ter aproveitado, mas de fato não perguntaria.

--------------------------------------------------------------- escrito por Cidão

--------------------------------------------------------------- fotografado por Guilerme Lara